Quinta Set 09

Você perde dinheiro com a previdência privada

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Imagine poupar R$ 100 por mês para garantir uma aposentadoria estável e com qualidade de vida. Aí, o tempo passa e quando você vai desfrutar do dinheiro duramente investido descobre que os R$ 100 guardados se transformaram em apenas R$ 80. Não, você não leu errado. Seu dinheiro diminuiu. Esse pode ser o resultado do seu investimento em previdência privada, uma aplicação que na maioria esmagadora dos casos só é vantajosa para as instituições financeiras.  

Entrevista com Henrique Nascimento Filho*

por César Gnan 

Na entrevista com o economista Henrique Nascimento Filho, da Planejadores.com, o Mundo8 aborda a necessidade do brasileiro se reeducar financeiramente e as alternativas para realmente fazer bons investimentos. 

Motivos da decepção

Henrique Nascimento Filho- Iniciados em 1994, os planos de previdência privada são amarrados com a obrigatoriedade de compra, pelos bancos, de 51% de sua captação em Letras do Tesouro, emitidos pelo governo para gerar recursos. Isso é regra. Além disso, quando você investe menos de mil reais por mês, que representa a maioria absoluta dos investidores, as taxas de administração cobradas pelos bancos são altas. Ou seja: é pura matemática. Compare qual será a rentabilidade média do seu plano, que é baseada na Taxa de Juros Selic, com as taxas cobradas pelos bancos mais o índice de inflação. Você descobrirá que as despesas não cobrem os ganhos, por isso o prejuízo. Você poderá pesquisar entre a concorrência e verá taxas de administração diferentes, mas invariavelmente nenhuma reverte a desvantagem. Essa conta os bancos não escondem. Grandes instituições mostram esse cálculo em seus sites. O problema é que o próprio contratante não se atenta a isso. Em alguns casos é melhor comprar planos de previdência de pequenos bancos que conseguem melhores rendimentos, só para garantir uma perda menor. Hoje nosso sistema financeiro é sadio e tem ferramentas que asseguram o investidor. 

Falta educação financeira

HNF – Os planos de previdência podem ser uma alternativa para quem não tem disciplina. Sabe aquela pessoa que precisa ter dívida para conquistar alguma coisa? Mas ela perderá dinheiro. Quando o plano de previdência privada é compartilhado com uma empresa tudo bem, mas quando você, pessoa física, paga o plano sozinho, está perdendo devido as taxas. O fundamental é a pessoa se reeducar financeiramente. É característico no brasileiro delegar ao outro o seu projeto de vida. É o que acontece quando você compra um plano de previdência. O banco emite o extrato, mas não discute os resultados. O cliente, por sua vez, não amplia sua visão para outras aplicações mais rentáveis. Trabalhei em instituições financeiras por muitos anos e sei como funciona do outro lado do balcão. O gerente precisa vender um produto. Isso não quer dizer oferecer o melhor ao cliente. Eu recomendo às pessoas nunca terem conta em um único banco e sempre consultarem mais que um gerente. Mas lembre-se: os bancos são generalistas, não especialistas. Não oferecem produtos específicos ao seu perfil. Meu conselho é que as pessoas físicas fujam dessas instituições.  

Planejamento

HNF - Com a estabilidade da economia as pessoas estão se habituando à linguagem financeira, algo impossível com a inflação galopante vivida no passado. Hoje é possível planejar. O primeiro passo é definir como você quer estar daqui dez, quinze ou vinte anos. Compare o quanto você precisa com o quanto você pode investir para chegar a esse objetivo. Daí basta procurar as melhores soluções. Um exemplo: separar 10% dos ganhos para investimentos é um bom percentual, mas vamos supor que você consiga reservar apenas R$ 50 por mês. Já é um começo. O importante é criar a cultura da reserva financeira. Coloque o dinheiro na poupança por alguns meses, que se apresenta como um bom investimento devido às baixas despesas, e depois reverta o capital em ações, preferencialmente das empresas mais sólidas para diminuir riscos. Quer delegar suas aplicações? Delegue, mas acompanhe. Procure apoio técnico sobre investimentos. Hoje temos bons consultores financeiros que cobram de acordo com a complexidade de cada cliente. Veja com ele, periodicamente, se o caminho escolhido é o correto. Se não for, procure o mais rentável e mude. Não espere vinte anos para descobrir que errou. Para fazer essas escolhas você não precisa de bancos. Basta um profissional que olhe o sistema financeiro de acordo com os seus interesses e não da instituição. 

Empréstimo para quem não precisa 

HNF  - As pessoas que pensam em ter seus próprios empreendimentos precisam tomar cuidado. O primeiro problema é que maioria dos novos empresários age por impulso ou por afinidade, não por habilidade. É aquele profissional que pega suas reservas e quer investir no sonho de ser o próprio patrão. Aí investe no que acha que gosta e não no que é bom. Eu, por exemplo. Adoro padarias. Isso não quer dizer que preciso ter uma para ser feliz. Me falta habilidade para o negócio. Prefiro ser um consultor financeiro que é o que eu sei fazer. Muitas pessoas não pensam assim e acabam batendo nos bancos para recuperar investimentos errados. Um grande erro. Eles só emprestam dinheiro para empresas estruturadas, que vão utilizar os empréstimos para aumentar o faturamento, ampliar seus negócios e que provam saber o que estão fazendo. Aí é bom para credor e devedor. Se você precisa de dinheiro para salvar sua empresa aconselho procurar outra alternativa. Talvez arrumar um sócio investidor seja uma opção. 

Fórmula ideal

HNF  - Muito se critica o valor dos benefícios pagos pelo INSS, mas se você fizer os cálculos ele pode se revelar uma boa aplicação. Imagine que você ganhe dois mil reais por mês e que contribua ao INSS com 20%. Ao final de 35 anos você acumulou R$ 168 mil. Com o fator previdenciário de 70% você tem o retorno desse investimento em 120 meses. Não estou falando que os valores pagos são os melhores, mas sim que você tem um rápido retorno do que foi investido. Melhor do que a previdência privada que você resgata menos do que investiu.O ideal é que sua aposentadoria seja planejada com o INSS compondo um percentual de um todo, complementado por outras aplicações que podem ser em ações, imóveis, entre outras. Importante é ter em mente quando você quer diminuir o ritmo de trabalho e com quanto você deseja sobreviver.Hoje a vida moderna nos coloca em um dilema: ou vivemos muito e não temos dinheiro para aproveitar a velhice, ou morremos cedo deixando nossa família desamparada. É preciso pensar nessas duas possibilidades e planejar o que se quer, consciente que você é o grande responsável pelo seu futuro, não uma instituição financeira. 

* Henrique Nascimento Filho é formado em Economia e Comunicação Social. Por 22 anos trabalhou no mercado financeiro. Atualmente é sócio-diretor da Planejadores.com.

www.planejadores.com

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